Netflix ou DVD? Livros, discos e filmes: o impacto ambiental da cultura e do entretenimento
Nas casas, não era raro encontrar no centro da sala de visitas, estantes imensas com discos de vinil, DVDs de filmes e livros, muito livros. Alguns deles eram pensados para serem lidos, outros para serem folheados, outros ainda despertavam...

Thinkstock (Thinkstock/VEJA/VEJA)
Quem tem menos de 30 anos provavelmente não sabe, mas houve um tempo em que se reconhecia a cultura de alguém, o contexto de vida e mesmo o poder aquisitivo, observando os objetos que a pessoa colecionava. Nas casas, não era raro encontrar no centro da sala de visitas, estantes imensas com discos de vinil, DVDs de filmes e livros, muito livros. Alguns deles eram pensados para serem lidos, outros para serem folheados, outros ainda despertavam interesse apenas por existirem, mesmo que quase nunca fossem abertos. Estavam ali para representar o apreço do proprietário pelo conhecimento. Em outras casas haviam fotos e pratos nas paredes, lembranças de lugares visitados ou presentes de pessoas queridas. Crianças colecionavam figurinhas, papéis para escrever carta, canetas, borrachas… Só quem viveu esse tempo saberá o que significava chegar na banca de jornal e saber que o novo lote de envelopinhos tinha chegado.
Se a escolha do que colecionar materializava a personalidade do proprietário, o ato em si era um costume socialmente compartilhado. Junto, vinha a aprendizagem precoce do que é categorizar, ordenar, numerar, classificar, definir. Hoje, isso mudou. Músicas, livros e filmes podem ser acessados por diferentes suportes. Quem prefere ser o proprietário daquilo que consome e usufruir sem depender do acesso à internet, ainda pode adquirir o objeto físico como se fazia antigamente, mas é cada vez mais raro. Outra possibilidade é comprar a versão digital desses produtos. Nesse caso, um arquivo contendo o código que corresponde ao objeto desejado, será instalado na memória e permanecerá disponível ao usuário. Mesmo assim, é possível que o comprador não seja de fato o proprietário. É o que acontece com alguns e-books ou arquivos criptografados que só podem ser acessados através de softwares pertencente a uma empresa. O usuário adquire o direito de uso dessa etapa intermediária, mas não domina aspectos essenciais como a continuidade e a evolução do produto. Assim, apesar de possuir “o livro”, o leitor pode ser impedido de ler.
Para os consumidores mais preocupados em acessar imediatamente o que aparece de novo no mercado do que em guardar o que existia no passado, existe o streaming. Rápido, fácil e barato, o que se compra é o direito de acessar o arquivo. Desde que a plataforma (Spotify, Netflix, YouTube…) esteja funcionando e que o equipamento esteja conectado à internet, o resultado é o mesmo. O modelo tem a vantagem de solicitar pouco a memória do próprio equipamento, uma vez que a transmissão dos arquivos acontece em contínuo. Dito de outra forma, assim como os demais dados transmitidos na internet, texto, áudio e vídeo são distribuídos em pacotes. A proposta é entregar uma parte de cada vez, ao invés de transferir o arquivo completo para cada usuário, o que poderia gerar um tempo de espera proporcional à demanda na rede e à quantidade de pessoas buscando a mesma coisa. Enquanto o usuário desfruta desse pacote, o próximo vai sendo carregado e armazenado na memória viva ao mesmo tempo em que o anterior é descartado. É mais ou menos como comprar pizza em fatias. Mesmo que se perca muito do charme, não dá para afirmar que o gosto seja diferente.
Há quem diga que tudo isso é sustentável, que o modelo reduz a demanda por internet, que o mundo digital permite economizar papel, tinta, transporte, plástico, e que os equipamentos multitarefa como os telefones celulares evitam a produção de uma série de outros equipamentos. De fato, é preciso considerar o argumento, mas o processo todo é bem menos imaterial do que parece. É que não é! Nuvens não armazenam arquivos! Todos eles estão em algum suporte físico, constituído fundamentalmente de plástico e de metais, alimentado com eletricidade e que utiliza água para ser resfriado. Ele apenas está distante do consumidor. Estimativas feitas em 2018 já apontavam que o consumo de vídeos por streaming representava 60% do tráfego de dados no mundo e que algo em torno de 300 milhões de toneladas de CO2 teria sido despejada (literalmente e materialmente despejadas!) na atmosfera naquele ano por causa dessa atividade. E veja, em 2018 o WhatsApp ainda não permitia o envio de vídeo. O valor é equivalente à pegada de carbono da Espanha inteira naquele mesmo ano. Vou poupar o leitor de saber quantas dessas toneladas referem-se a videos de pornografia e pedopornografia para que a informação não se torne ainda mais indigesta. Somando-se isso ao fato de que a demanda mundial por energia bem como o consumo de equipamentos eletrônicos só aumenta, é possível argumentar que ainda que haja economia efetiva em cada evento, a facilidade de acesso multiplica as demandas e incentiva o consumo. Ao final, o balanço não será necessariamente favorável.
Mas o digital não e o único a deixar sua marca. Na “receita” da fabricação dos discos de vinil por exemplo, 43% é plástico PVC, feito a partir do petróleo, uma das matérias mais poluentes que existe. Cada disco de 135 g equivale a 0,5 kg de CO2. A laca que os compõe contém alumínio (entre outros metais) e apenas algumas velhas indústrias ainda são capazes de produzi-las, o que aumenta a demanda por transporte. Depois de produzida a base, vem o registro da música e as prensas capazes de fazê-lo gastam grandes quantidades de água e de eletricidade. Há ainda a tinta e o papel para produzir as bonitas capas e encartes de cada disco, além da distribuição e armazenagem dos exemplares. Dito de outra forma “o quentinho no coração” provocado pelo disco na velha vitrola também se transforma em calor na atmosfera do planeta e em poluição.
Assim, uma vez mais, não existe uma escolha certa entre fazer isso ou aquilo. É preciso aprender a gerenciar o recurso que ainda existe, considerando a necessidade ou ao menos a relevância das ações realizadas e dos processos que cada objeto consumido digital ou fisicamente desencadeia. Para ajudar nessa tomada de decisão, organismos mundialmente relevantes disponibilizam conselhos baseados nos dados disponíveis:
1. Ouvir um mesmo álbum em streaming 27 vezes, tem um impacto equivalente à sua fabricação em CD. Assim, para ouvir as músicas mais recentes de artistas desconhecidos que você não sabe se vai gostar ou não, melhor escolher o suporte digital.
2. É preciso ler pelo menos 50 livros na mesma leitora apenas para “pagar” o impacto ambiental provocado pela sua fabricação. Como esses equipamentos se tornam obsoletos e se desgastam com alguma rapidez, se você lê apenas um ou dois livros por ano, ou se gosta de possuir livros que nunca vai ler, melhor comprar o exemplar físico.
3. As plataformas de streaming costumam compactar os arquivos reduzindo o seu impacto, por isso é melhor acessar os conteúdos através delas do que ir direto ao filme por outro caminho.
4. Quando for baixar os arquivos, escolha o wi-fi ao invés da rede móvel. Se estiver na rede móvel e isso não puder esperar, melhor utilizar o 4G do que o 5G. Idealmente, opte por horários em que não há pico de consumo de energia elétrica na sua região.
5. Para apreciar uma música, você pode dispensar o vídeo e consumir apenas o áudio. O mesmo pode ser dito dos podcast/videocasts. Se o conteúdo foi pensado para ser ouvido, não haverá perda alguma em dar preferência apenas ao áudio.
6. Para os filmes, é possível economizar consideravelmente adaptando a resolução ao suporte: de nada adianta escolher o arquivo em HD se for para consumir através do tablet ou do telefone celular.
Se precisa de uma referência para entender que o esforço vale a pena, dados mostram que assistir a sete horas de vídeo em streaming por semana, utilizando o wi-fi e em baixa definição, corresponde, em termos de emissão de CO2, a um trajeto de 20 km de carro. Nas mesmas condições, se o vídeo estiver em HD e for consumido no 4G, o trajeto equivalente seria de 133 km. Esses conselhos mostram que é possível agir pela sustentabilidade da vida no planeta mesmo quando não se deseja abrir mão de quase nada.

Imagem: Reprodução
Sim, sim, eu sei… não se trata apenas de tecnologia. A escolha entre ter o livro, o disco ou o DVD nas mãos ou acessar o seu conteúdo através do aplicativo corresponde a diferentes formas de usufruir aquilo que eles contêm. No caso do vinil por exemplo, o som emitido é contínuo. Ou seja, a todo momento, a agulha toca o disco e com isso, preenche o espaço com algum tipo de som ou ruído. Já o digital, na ausência de informação, oferece o silêncio. Não há ruído, nem impureza, tudo é calibrado ou calibrável. Ou seja, o resultado final da escuta é efetivamente diferente. Para alguns, o digital propõe maior pureza, para outros, maior frieza. Para desempatar opiniões, é possível considerar o contexto do artista no momento em que concebeu e registrou a obra. Dos anos 60 aos anos 80 isso se fazia quase exclusivamente de modo analógico. Assim, é o vinil que restitui melhor o projeto do cantor e do compositor através da complexidade de sons que oferece, bem como do modo de escuta a ele associado. Já alguns trabalhos mais recentes parecem ser pensados para o modo de difusão e de consumo atual: sons de origem eletrônica, alta compressão dos arquivos, escuta que compartilha a atenção do ouvinte com uma série de outras tarefas e ruídos, títulos semelhantes que se sucedem ao invés de marcarem sua diferença para virarem um hit que atravessa as décadas. Mesmo a audição dos jovens, que vem sendo afetada pelo uso constante de fones de ouvido, parece ser um elemento que influencia a oferta atual.
Mas há outras perguntas que precisam ser feitas para que a coisa toda não perca o sentido. Será que a pureza do som digital é de fato captada pelo ouvido humano? Quanto dela é perdida na grande compressão dos arquivos disponíveis nas plataformas? Quantos artistas estão escondidos entre as centenas de milhares de títulos novos que humanos e IAs disponibilizam cotidianamente?
E quanto a experiência oferecida pela coleção de discos em vinil faz falta na formação do público que aprecia e produz música? A sensação de encontrar um disco raro, o tempo de espera procurando e testando títulos nas lojas de disco, a conversa com apaixonados por música e por discos, a escuta do álbum de ponta a ponta. Há ainda o custo que impunha a necessidade de fazer escolhas entre a compra de um álbum ou outro, o que certamente oportunizava reflexões sobre os critérios e preferências de cada um. Em paralelo, esse custo contribuía com a motivação para o cuidado, aumentando o valor agregado dos objetos e a sua durabilidade. Há discos de vinil que são heranças de outras gerações.
E mais, há quem pense que o charme do vinil é o ruído! Que os arranhões testemunham a escuta intensiva e os episódios da vida e que ouvir música corresponde ao ritual: escolher o álbum, tirar o pó do disco, instalar delicadamente a agulha e permanecer ao alcance do som emitido. Com isso, o ouvinte é parte da experiência que a escuta proporciona e tem influência sobre ela. Em troca, o artista oferece um projeto que amarra um conjunto de músicas a um tema, um episódio, uma tendência. Ele se materializa no nome do álbum, na ilustração da capa, nas parcerias com outros músicos explicitadas no encarte e nas letras das músicas que aliás podem ser encontradas para o ouvinte ler e cantar junto. O streaming, por sua vez, multiplica as oportunidades de escuta e de partilha, acompanha o ouvinte nos diferentes momentos do dia mas divide a atenção com as outras tarefas e ruídos e contribui para transformar a música em mais um consumível engolido sem atenção.
Para ir mais longe nesta reflexão, entendendo que a oferta também modifica o produto, é indispensável considerar a indústria do cinema e a relação estabelecida com as plataformas e as ferramentas digitais. Antes, os filmes de super-herói tinham uma estética inspirada nos quadrinhos. Que o diga o Dick Tracy com sua capa amarelo pintinho e a cueca vermelha do Super-Homem (por cima das calças, por favor). Já os filmes lançados a partir do ano 2000 como X-Men, de Bryan Singer, vieram carregados de transparência, tons de cinza e prata (e a famosa cueca sumiu).
Exagera-se pouco ao afirmar que é possível adivinhar em que ano um filme foi feito analisando apenas a colorimetria. Estética? Na verdade não. A chegada das ferramentas digitais (na filmagem e na edição) alterou profundamente os filmes produzidos. No tempo da película, a captação registrava as cores naturais e o ajuste era feito à posteriori, plano à plano. Com a chegada das câmeras digitais tudo mudou. A alta sensibilidade dos equipamentos tornou ainda mais temerário lidar com cores vibrantes. Isso porque, se há desarmonia de tons entre as cenas, olho e cérebro precisam trabalhar juntos para adaptar-se às mudanças, o que provoca um efeito semelhante ao da luz estroboscópica.
Para evitar crises de epilepsia coletivas, simplificando também o processo de edição e homogeneizando o resultado, a opção foi o uso do que ficou conhecido como os arquivos RAW. Eles permitem o tratamento do conjunto de cores do filme no pós-filmagem, inserindo um padrão pré-definido e padronizado. Por conta disso, as câmeras passaram a ser reguladas para captar o mínimo possível de cor. E antes de chegar ao cinema, esse efeito atingiu a publicidade. Com profissionais despreparados para a tecnologia, incapazes de fazer adequadamente o ajuste, muitas filmagens pálidas foram mantidas, trazendo a moda dos tons neutros e das cores “pastel”. Assim se explica a transição dos comerciais multicoloridos (como a marca de roupas Benetton) que cederam espaço para as imagens pálidas característica dos anos 2000 (como os comerciais das balas Tic-Tac). A captação escurecida e com cores discretas também ajuda a baratear o processo e esconder defeitos, tornando mais atraentes os roteiros que contém dias chuvosos, penumbra e escuridão. (Não é à toa que o close no Tiranossauro Rex, em Jurrassic Park, acontece em meio a uma tempestade.)
O contexto acima foi potencializado pelo 11 de Setembro, e toda a leva de filmes enfumaçados que se seguiu. Depois, a pandemia tornou o acesso às plataformas de entretenimento uma questão de saúde pública. Para barateá-lo e facilitá-lo, veio o enxame de títulos de baixo custo, sem muita pós-edição, rápidos de produzir e que podiam ser acessados em telas de qualquer tamanho, com muita ou pouca banda de rede.
Esse exemplo mostra como as pequenas e grandes escolhas de cada um, a cada dia, sustentam as mudanças que transformam o mundo. Aqui, a opção pelo fácil, rápido e barato contribuiu para levar embora a cor do cotidiano, como demonstra um estudo realizado junto ao Science Museum de Londres. Azulejos, pisos, toalhas de mesa, cortinas, carros, roupas, objetos de decoração, paredes, equipamentos eletrônicos… o estudo comparativo do padrão de cores presente nos objetos comprova e quantifica o que podemos ver olhando para fora e para dentro das janelas: tons de cinza, preto e branco estão em todos os lados. David Batchelor, autor de Cromofobia, também ajuda a entender o fenômeno. Tanto na música como nos filmes, não foram apenas as cores que pararam de vibrar. Esse tem sido o tempo das histórias sem muito tempero, que se preocupam mais em evitar a rejeição tornando-se palatáveis, do que em chacoalhar, emocionar ou surpreender. Mesmo que para isso tenham que se tornar insossas.
Rafaela Samagaia
Pesquisadora do Instituto de Estudos Avançados da USP
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